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25 de novembro de 2023relacionamentos abusivosviolência domésticatrauma

Relacionamentos abusivos: o que mantém as pessoas presas — e como sair

Violência doméstica e relacionamentos abusivos afetam 1 em cada 3 mulheres globalmente (OMS). Lenore Walker (Barry University) e o ciclo da violência — tensão, explosão, lua-de-mel, calmaria. Por que 'simplesmente sair' não é simples: vinculação traumática (trauma bonding), normalização gradual, isolamento de rede de suporte, dependência financeira. Evan Stark e controle coercitivo como estrutura do abuso. Judith Herman e o processo de recuperação. Recursos no Brasil: Central de Atendimento à Mulher 180 e serviços especializados.

"Não entendo por que não saio — ele me machuca mas depois fico sentindo falta." "As pessoas me perguntam por que fiquei 8 anos — como se fosse simples." "Ele nunca me bateu mas eu fico com medo de falar certas coisas." "Fui perdendo amigas, distância da família — e ficando cada vez mais dependente dele." "Tenho vergonha de admitir o que está acontecendo porque parecia ótimo no começo."

Uma das perguntas mais frequentes sobre relacionamentos abusivos — feita por familiares, amigos, e às vezes pelas próprias mulheres — é: por que ela não sai?

É pergunta errada. Revela desconhecimento do que mantém pessoas em relacionamentos abusivos — e coloca responsabilidade onde não deveria estar.

A pergunta útil é: o que cria e mantém a prisão?


O ciclo da violência

Lenore Walker, psicóloga americana que trabalhou extensivamente com vítimas de violência doméstica, descreveu em "The Battered Woman" (1979) o ciclo da violência — padrão observado em muitos relacionamentos abusivos:

Fase 1 — Acúmulo de tensão: tensão cresce gradualmente. A vítima sente o clima mudando, tenta aplacar, evita conflito, anda na ponta dos pés. O agressor fica crescentemente irritável.

Fase 2 — Explosão: incidente de abuso — violência física, verbal, sexual, ou emocional intensa. Pode durar minutos ou dias.

Fase 3 — Lua-de-mel: após a explosão, o agressor frequentemente demonstra remorso intenso — pede desculpas, faz promessas de mudança, é gentil e amoroso. É o homem do início do relacionamento — o que a mulher amou e ainda ama.

Fase 4 — Calmaria: período de relativa estabilidade, antes que a tensão comece a acumular novamente.

O ciclo tem implicação psicológica crítica: a lua-de-mel confirma o que a mulher esperava — que o "bom" existe, que ele pode mudar, que há razão para permanecer. Cada lua-de-mel é reforço intermitente da esperança.

Walker documentou que o ciclo tende a se encurtar com o tempo — as fases de lua-de-mel e calmaria ficam progressivamente mais curtas, a fase de explosão mais frequente e intensa.


Vinculação traumática (trauma bonding)

Patrick Carnes, terapeuta americano, cunhou o termo trauma bonding — o vínculo que se desenvolve com o agressor em contexto de ciclo de abuso e recompensa.

O mecanismo neurobiológico: relacionamentos abusivos frequentemente têm intensidade emocional muito alta — tanto nos episódios de abuso quanto nos de lua-de-mel. Essa intensidade ativa sistemas de recompensa (dopamina) de forma mais intensa do que relacionamentos estáveis e de baixa intensidade.

Martin Seligman e o conceito de desamparo aprendido (learned helplessness) — desenvolvido originalmente em pesquisa com animais submetidos a choques elétricos inescapáveis — é relevante: quando a pessoa experiencia que suas ações não produzem controle sobre o que acontece, o sistema motivacional de fuga é progressivamente desativado. Depois de tentativas fracassadas de sair, a pessoa pode chegar ao ponto de não tentar mais — não por vontade, mas por aprendizado de que é inútil.

A combinação de trauma bonding e desamparo aprendido cria prisão psicológica que é, para muitas mulheres, mais poderosa do que as grades físicas.


Controle coercitivo: além das agressões físicas

Evan Stark (Rutgers University), em "Coercive Control" (2007), argumentou que focar em incidentes de violência física perde a estrutura do abuso em relacionamentos íntimos — que frequentemente é de controle coercitivo contínuo.

Controle coercitivo inclui:

Isolamento: cortar gradualmente os laços com família e amigos — por crítica, por ciúme, por exigência de presença exclusiva. A mulher que "perdeu os amigos" não escolheu perdê-los — foi sistematicamente isolada.

Micromanagement de vida: controle de o que veste, com quem fala, para onde vai, o que come, quando dorme. Erosão gradual da autonomia.

Monitoramento: acesso a celular, rastreamento de localização, controle de senhas, verificação de quem está na lista de contatos.

Degradação sistemática: comentários que minam autoestima — sobre aparência, competência, valor. A mulher que entra no relacionamento confiante frequentemente sai sem se reconhecer.

Controle financeiro: privação de recursos, exigência de justificativa de gastos, impedimento de trabalho. Dependência econômica como mecanismo de aprisionamento.

Uso de filhos: ameaças sobre guarda, alienação parental, instrumentalização dos filhos.

O controle coercitivo pode existir sem violência física visível — e é frequentemente mais danoso a longo prazo porque erode a identidade e a capacidade de funcionar de forma autônoma.


O processo de normalização

Uma das dinâmicas mais documentadas em relacionamentos abusivos: a normalização gradual — a escalada tão lenta que cada passo parece pequeno demais para ser o momento de sair.

A mulher que entra no relacionamento com limites claros não acorda um dia com esses limites destruídos. Eles são movidos milímetro a milímetro — cada transgressão seguida de lua-de-mel que normaliza o que aconteceu.

"Ele ficou com ciúme mas ele me ama tanto." "Ele gritou mas eu o provoquei." "Ele me empurrou mas estava bêbado." "Ele me bateu mas foi a primeira vez."

O que de fora parece óbvio — "ela deveria sair" — de dentro é série de pequenas adaptações que protegem a narrativa de que o relacionamento ainda é salvo, que o amor ainda está lá, que o próximo episódio de lua-de-mel vai ser diferente.


Por que sair é perigoso

A estatística mais importante que reverte a pergunta "por que ela não sai?":

Mulheres têm risco de morte 75% maior nos dias e semanas após sair de um relacionamento abusivo do que enquanto estão nele (Catalano et al., Bureau of Justice Statistics).

O período de saída é de risco máximo. O agressor que sente que está perdendo o controle frequentemente escala para violência mais grave. "Se não vai ser minha, não vai ser de ninguém."

Judith Herman, em "Trauma and Recovery" (1992), documentou que o isolamento que o controle coercitivo cria não é acidental — é a estratégia que torna a saída mais difícil. Mulher sem rede de suporte, sem recursos financeiros, sem confiança na própria percepção tem menos ferramentas para a transição.

A pergunta não é "por que ela não sai?" A pergunta é "que recursos ela tem para sair de forma segura?"


Saúde mental em sobreviventes

O impacto psicológico de relacionamento abusivo prolongado é documentado extensamente:

TEPT complexo (C-TEPT): exposição prolongada e repetida a trauma interpessoal — que é o que abuso continuado representa — produz quadro clínico diferente do TEPT de evento único. Inclui perturbações de regulação emocional, perturbações de identidade, e perturbações de relacionamento (dificuldade de confiar, padrões de relacionamento que replicam dinâmica do abuso).

Depressão: prevalente. Frequentemente interpretada como "fraqueza" ou como "problema dela" — em vez de consequência direta do abuso.

Dissociação: em abuso severo e prolongado, especialmente com início na infância.

Vergonha: componente que frequentemente silencia e impede busca de ajuda — "como deixei chegar a isso?"

Bessel van der Kolk, em trabalho sobre trauma complexo, e Judith Herman, em modelo trifásico de recuperação de trauma, documentaram que recuperação requer sequência: primeiro segurança, depois processamento do trauma, depois reconexão com vida.

A fase de segurança não é opcional — é o pré-requisito de tudo mais.


O processo de recuperação

Herman identifica três estágios da recuperação de trauma:

Estágio 1 — Segurança: estabelecer segurança física, estabilidade de vida básica, e algum grau de regulação emocional. Inclui saída do relacionamento abusivo quando ainda está nele, acesso a abrigo e recursos quando necessário.

Estágio 2 — Rememoração e luto: processar o que aconteceu — com profissional qualificado em trauma. Não apenas contar os fatos, mas processar o impacto emocional.

Estágio 3 — Reconexão: reconstruir vida fora da sombra do abuso — identidade, relacionamentos, projetos.

A advertência de Herman: avançar para estágio 2 antes de estágio 1 está firmemente estabelecido é contraproducente e pode retraumatizar. Tempo no estágio 1 não é perda de tempo — é investimento na fundação de tudo mais.


Uma coisa sobre quem ela era antes

Mulheres que saem de relacionamentos abusivos frequentemente descrevem sensação desconcertante: não se reconhecer.

Não lembrar quem eram antes. Não saber do que gostam, o que querem, quem são fora da dinâmica que consumiu anos.

Isso não é metáfora. É consequência documentável do controle coercitivo — que sistematicamente erode a identidade, a tomada de decisão autônoma, e o senso de que os próprios pensamentos e sentimentos são válidos.

A recuperação não é retornar à pessoa que se era antes — essa pessoa também não existe mais. É construir, do que sobrou e do que foi aprendido, quem se quer ser agora.

Processo lento. Não linear. Com momentos de clareza e de recaída. Com saudade — sim — do que havia de bom no relacionamento, que existia. Com raiva — quando ela consegue acessá-la — do que foi perdido.

E, eventualmente, com reconhecimento de que sobreviveu ao que pensou que a destruiria. E que isso é fundação para algo diferente.


Recursos no Brasil

Central de Atendimento à Mulher — 180: gratuito, 24h. Atendimento, informação sobre serviços, acolhimento.

Casa da Mulher Brasileira: serviço integrado em cidades selecionadas — inclui assistência social, orientação jurídica, delegacia especializada, abrigamento.

Delegacia da Mulher (DEAM): em todas as capitais e muitas cidades — registro de ocorrência, medida protetiva de urgência (Lei Maria da Penha).

CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social): suporte a mulheres em situação de violência — via SUAS.

Abrigos: rede de abrigos para mulheres em risco de vida — via 180 ou assistência social.

Instituto Maria da Penha (impo.org.br): informação sobre a Lei Maria da Penha e recursos.

Dra. Jessica Jacomelli

Psiquiatra · Saúde mental da mulher

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