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25 de março de 2024pandemiaCOVID-19saúde mental

Sequelas da pandemia em saúde mental: o que ficou depois que 'acabou'

A pandemia de COVID-19 produziu impacto documentado em saúde mental que não desapareceu com o fim das restrições. Pfefferbaum e North (NEJM 2020). Síndrome de estresse pós-COVID. Luto coletivo e luto complicado pela forma específica das mortes pandêmicas. Impacto desproporcionalmente maior em mulheres, em profissionais de saúde, e em populações vulneráveis. O que é 'languishing' (Adam Grant). Epidemia de ansiedade e de transtornos alimentares em adolescentes. O que falta no sistema de saúde mental pós-pandemia.

"Terminaram as restrições e não consigo voltar para como era antes." "Perdi minha mãe para COVID e não tive funeral — nunca me despedi." "Minha ansiedade veio durante a pandemia e nunca foi embora." "Minha filha adolescente saiu da pandemia diferente — ela diz que sim, mas não sei do que voltou." "Trabalhei na UTI durante a pandemia e ainda tenho pesadelos."

A pandemia "acabou" para os noticiários antes de acabar para o sistema nervoso de muita gente.

O impacto em saúde mental é documentado, persistente, e distribuído de forma desigual — com grupos específicos carregando sequelas que o sistema de saúde ainda não tem capacidade de absorver adequadamente.


O que a pandemia fez à saúde mental — em dados

Betty Pfefferbaum e Carol North publicaram em 2020 (NEJM) uma das primeiras análises do impacto esperado da pandemia em saúde mental — com base em precedentes de crises sanitárias e desastres anteriores.

Pesquisa que se seguiu documentou:

Prevalência aumentada de depressão e ansiedade: meta-análise de Salari et al. (2020, Globalization and Health) com dados de múltiplos países documentou prevalência de depressão de 33,7% e de ansiedade de 31,9% durante a pandemia — aumento substancial em relação a prevalências pré-pandemia.

TEPT: profissionais de saúde de linha de frente tiveram taxas de TEPT de 20-30% em múltiplos estudos. No Brasil, pesquisa da Fiocruz documentou que profissionais de saúde tiveram aumento substancial de sintomas de TEPT, ansiedade, e depressão durante os picos de COVID.

Transtornos alimentares em adolescentes: múltiplos países documentaram aumento dramático de hospitalizações e encaminhamentos por transtornos alimentares em adolescentes — especialmente meninas — durante e após a pandemia. Lockdown, isolamento social, e exposição aumentada a redes sociais foram fatores identificados.

Consumo de álcool e substâncias: aumento documentado especialmente em mulheres, em adultos com filhos, e em trabalhadores remotos com fronteiras trabalho-vida dissolvidas.


Luto pandêmico: as mortes que não puderam ser lamentadas

A pandemia produziu uma forma específica de luto que dificulta processamento:

Mortes sem despedida — familiares que não puderam estar presentes, sem rituais de morte que as culturas humanas desenvolveram ao longo de milênios para dar suporte ao luto.

Mortes em massa — com escala que paralisa a capacidade de processar individualmente cada perda.

Luto suspenso — sobreviventes que continuaram obrigações de trabalho e de cuidado sem tempo ou espaço para processar.

David Kessler — autor que colaborou com Elisabeth Kübler-Ross e que cunhou o "sexto estágio do luto" (encontrar significado) — documentou que luto pandêmico tem características específicas que dificultam processamento:

A antecipação de mortes coletivas criou luto antecipatório; a experiência de perda múltipla simultânea sobrecarregou capacidade de processamento; a ausência de rituais de morte deixou muitas pessoas sem marcador para o fim de um período de vida e início de outro.


O que é "languishing"

Adam Grant, psicólogo organizacional de Wharton, publicou em 2021 (New York Times) texto sobre "languishing" — estado de não estar bem, mas não estar em crise declarada.

Languishing é o espaço entre florescimento e depressão — vazio, indiferença, falta de sentido, sensação de não avançar. É frequentemente invisível porque não preenche critérios diagnósticos formais.

Grant argumentou que languishing era o estado dominante de muitas pessoas em 2021 — e que nomeá-lo era importante porque:

  1. Permite que pessoas reconheçam o que estão sentindo sem precisar de diagnóstico formal
  2. Distingue de "estar bem" (que muitas pessoas afirmavam enquanto não estavam)
  3. Aponta para intervenção: estado de fluxo (Csikszentmihalyi), objetivos com significado, e reconexão com atividades que produzem presença

Impacto desigual: quem carregou mais

Mulheres: impacto maior por razões sobrepostas — sobrecarga de cuidado quando escolas fecharam, acúmulo de trabalho doméstico, perda de renda em setores feminizados, e — para mulheres em relacionamentos com violência doméstica — convivência forçada com agressor.

Profissionais de saúde: TEPT, burnout, e luto complicado por perdas de pacientes em escala não antes experienciada. O impacto em profissionais de saúde ainda não foi adequadamente endereçado no Brasil.

Adolescentes: lockdown durante período de desenvolvimento social crítico; privação de escola e pares; exposição aumentada a redes sociais; em famílias com violência doméstica, privação de escape que a escola oferecia.

Populações vulneráveis: pessoas em situação de rua, população carcerária, populações indígenas — que tiveram não apenas maior risco de COVID mas menor acesso a suporte de saúde mental.


Long COVID e saúde mental

Além das sequelas psicológicas da pandemia como evento, Long COVID (síndrome pós-COVID) tem componentes de saúde mental:

Ansiedade e depressão são frequentes em Long COVID — possivelmente por mecanismos neurológicos diretos (neuroinflamação) além de componentes psicossociais.

Déficits cognitivos ("brain fog") — dificuldade de concentração e memória — têm impacto em funcionamento e em identidade (especialmente em pessoas com identidade profissional fortemente ligada a capacidade cognitiva).

Fadiga crônica que não melhora com descanso — sintoma central em Long COVID — tem impacto em funcionamento que produz sofrimento psicológico secundário.


O que o sistema de saúde mental não consegue absorver

A pandemia aumentou a necessidade por cuidado de saúde mental simultaneamente a:

  • Aumento de burnout em profissionais de saúde mental (que também estavam em pandemia)
  • Interrupção de serviços durante restrições
  • Escalada de lista de espera em serviços públicos

No Brasil, o Sistema Único de Saúde já operava com capacidade insuficiente em saúde mental pré-pandemia — a lacuna entre necessidade e oferta cresceu durante e após.

O resultado prático: pessoas com sequelas de saúde mental da pandemia frequentemente não têm acesso a cuidado adequado — especialmente as mais vulneráveis, que dependem do SUS.


Uma coisa sobre não ter voltado ao normal

Há expectativa cultural — às vezes interna, às vezes de pessoas ao redor — de que com o fim das restrições, as pessoas "voltariam ao normal."

Para muitas pessoas, esse retorno não aconteceu.

Não porque sejam fracas ou estejam "aproveitando" o impacto para não se responsabilizar. Porque o sistema nervoso foi submetido a estressores reais, por período prolongado, frequentemente com perdas concretas — e precisa de tempo e de suporte que não é automaticamente oferecido.

Nomear isso — "ainda não voltei, e não sei se vou voltar exatamente como era" — não é recaída. Pode ser o começo honesto de descobrir quem se está se tornando no que existe depois.

E para quem perdeu alguém durante a pandemia: luto que não teve cerimônia merece ter. Ainda é possível criar o ritual, a despedida, o espaço para nomear o que foi perdido.

Não desfaz. Mas pode completar algo que ficou incompleto.

Dra. Jessica Jacomelli

Psiquiatra · Saúde mental da mulher

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